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SneakersBR e Kickstory Apresentam: adidas Home of Classics – Mr-Fe

Apresentado por adidas Originals

O pack HOME OF CLASSICS da ADIDAS ORIGINALS traz uma releitura de grandes clássicos da marca, novos ou antigos, em versões super caprichadas no seu acabamento, execução e cartela de materiais, sempre com couro branco na sua maioria.

De visual simples, a ADIDAS acredita que um tênis todo branco é uma tela a ser pintada e que nenhum par no mundo é igual a outro e que são os próprios donos que irão colocar suas próprias histórias particulares neles.

Em parceria com a ADIDAS ORIGINALS, o SNEAKERSBR convocou três contadores de história brasileiros, KICKSTORY, WHATAZINE e NOTTHESAMO, para encontrar e contar histórias peculiares.

O segundo capítulo dessa série com o KICKSTORY é a história de Mr-Fe e seu GAZELLE.

“Meu nome é Mr-Fe, eu sou da ​Street Breakers Crew​ e da Spray Studio Produções – que é uma empresa que faz há mais de 20 anos eventos relacionados a break, hip-hop e grafite; somos os realizadores do ​Master Crew​ e do ​For Fun​, que são as nossas festas mais conhecidas. Além disso, eu sou freelancer, diretor de arte especializado em 3D e retoque, e tenho meu próprio estúdio.”

 

Quando você conheceu toda essa cultura do hip-hop, e se envolveu com ela?

O meu primeiro envolvimento direto com a cultura foi especificamente no Natal de 1991. Eu morava em Vila Carrão na Zona Leste, e um amigo me convidou em plena véspera de Natal pra ir ver uns caras que dançavam na avenida lá perto. A gente foi pra lá e eu não queria mais voltar, fiquei encantado a primeira vista! Eu olhei pra aquilo, aqueles caras dançando todos com agasalho iguais, com grafite na jaqueta, falei “nossa! Isso é único e especial”. Aqueles movimentos que iam contra a gravidade – eu me identifiquei com aquilo e falei “preciso aprender isso agora”.

E aí eu fui entender o quanto era importante aquela cultura, e o porque em plena véspera de natal, às 9h da noite, os caras estavam longe das famílias dançando break​ – e eram vários caras. Isso era muito incrível, cara. Eles devem amar isso demais. E aí eu perguntei “quando vocês vão estar aqui de volta?”, “todos os dias às 7h da noite a gente tá aqui”. ​Então, eu comecei no natal de 1991 e nunca mais parei, tô até hoje nessa história, já são quase 28 anos. E depois de uns anos quem me ensinou a dançar foi a minha crew, Street Breakers. Depois de 2 anos eu entrei, sou membro até hoje e a gente faz 30 anos esse ano. É uma das crews mais antigas do país em atividade. A gente era membros tudo da Zona Leste, Vila Formosa, Vila Carrão, Tatuapé, Vila Santa Isabel, era a galera que se reunia lá, todos do bairro.

 

E como foi a criação das festas Master Crew e For Fun?

Em 1993, a gente percebeu que o país tinha um déficit de informação incrível sobre hip-hop. Nós queríamos saber o que acontecia do outro lado do mundo mas a gente nem sabia o que acontecia no bairro do lado. Nossos comunicadores na época eram a carta, TV e a mídia impressa, que faziam o tempo todo reportagens completamente distorcidas sobre nossa cultura.​ Então começamos a fazer por nós mesmo – a gente traduziu várias matérias gringas, entrevistamos pessoas via carta, começamos a fazer matérias, os gringos às vezes vinham pra cá ou a gente tinha oportunidade de ir pra lá. E assim criamos um fanzine, chamado Zine SB, e já na segunda edição virou Revista SB. Essa revista foi um momento marcante na história da cultura, para o hip-hop e principalmente o break, porque na mesma época ​Os Gêmeos lançaram a Fisca, que foi a primeira revista de grafite do país. Eu fiz a Revista SB com um cara mais velho da minha crew, o Bispo, e que até hoje é meu sócio da nossa empresa que realiza os eventos, a Spray Studio.

A cultura do fanzine era extremamente forte, era a comunicação underground da época. Eu tive uma namorada que ela era punk, anarquista, e ela fazia alguns fanzines e me deu uma inspirada. E a gente quis fazer algo diferente, com capa colorida, coisa que a galera não tinha costume de fazer. Nessa época eu tava iniciando nas artes gráficas, o computador tava chegando, então eu preferi fazer algo um pouquinho melhor, porque sempre achavam que a nossa cultura era tratada como coisa mal feita de perifa. Falei “meu, vai ser a melhor fanzine que tem no mercado”. A gente lançou, vendemos tudo, virou uma revista, aí de 50 unidade, foi pra 100, 200 e por ai vai, quando vimos já tava no Brasil todo. A cada 3 meses que a revista era lançada, a gente fazia uma festa de lançamento. E foi aí que a gente aprendeu a fazer festa.

Era muito legal, as pessoas chegavam na festa e em vez de ir dançar, a gente via na parede todo mundo encostado abrindo a revista e lendo. E enquanto eles não terminavam até a última página, ninguém ia pras rodas dançar. O meu amor era ver isso, porque pessoal queria informação, queria saber o que tava acontecendo. A gente tem um pilha até hoje de carta, foto e registros dessa época. Ficamos com ela até 1998, que foi quando a internet chegou e a gente viu que não havia mais necessidade, a informação já tava online. Então a gente encerrou as atividades dela na edição número 10. Foi legal.

Ah, é muito importante dizer que o começo da revista foi uma ideia da minha irmã. Ela tinha seis anos na época que eu comecei a dançar, e eu, com doze. Minha irmã ia comigo no treino por que eu não podia deixar ela sozinha em casa. E hoje ela é uma B-girl também – a mais antiga no país em atuação. Ela hoje é mais do crossfit, competidora de crossfit, mas ela dança, tá nas rodas, tá com a gente, tá na crew.

 

E agora você tá retomando essa história e imagens no Instagram, né?

É. A gente sempre foi a favor da história que informação não se guarda. De que a gente vai passar e a história precisa continuar. Então a gente cede todos os nossos materiais, a gente nunca nega entrevista, nunca nega ceder as coisas. As pessoas vem escanear fotos para livros, pra documentação, documentários, a gente faz questão de passar.

A gente tem um respeito muito igual em quem tá chegando na cultura, com quem tá há muito tempo. Inclusive a gente nem gosta de ser chamado de “old school” porque a gente se considera o “actual school”. A gente tá em atividade ainda, nenhum de nós parou, a gente só é velho mesmo. De velho você pode me chamar, mas não de old school (risos). A gente acha que tem que ter um equilíbrio entre nós e eles para poder migrar nossas influências, nossas informações. Se a gente fizer um divisor muito radical eles não vão ouvir e a gente não vai ouvir eles. O mais novo da crew tem 24 anos. Ele fala “os caras já dançavam e eu não tinha nem nascido, tá ligado?”. Eles racham o bico. Os mais novos sofrem com a gente.

 

Qual a dimensão da Master Crew?

O Master Crew é lá na Casa da Caldeiras e vem em média 4 mil pessoas. A gente fecha aquelas Caldeiras inteiras, tem que fechar a porta. E acontece uma vez por ano. É o mais

famoso dos eventos na América Latina, um dos mais conhecidos no mundo. A gente tem muitas rodas, que a gente chama de cyphers. Esse termo inclusive foi concebido no mesmo ambiente que as festas de hip-hop nos anos 70. E isso é o que a gente tem mais orgulho. Apesar de ter uma competição lá dentro, ninguém liga pra quem ganha, todo mundo liga como é que tá o clima, juntar as pessoas é a atração do Master Crew. Pessoas de old schools, new schools, os realizadores de outras festas, de pequenos a grandes, todos vem, e as crews de vários lugares, vem de fora do país, vem daqui, vem da Europa, América Latina. Argentina e Chile sempre batem cartão. Mas o Brasil é muito mais populoso no hip-hop, no break, então é mais natural que tenha mais da gente.

 

Então agora falando de coisa boa, que é tênis. O que ele representa pra você?

Na verdade a história da nossa cultura e os tênis foi assim: preciso de tênis esportivo e confortável pra dançar, e que fosse barato. O adidas Superstar, Pro Keds, Puma Suede, todos eles eram os tênis baratos da época. Hoje a gente vê como caro, mas na real antes era os tênis esportistas que a periferia podia comprar, Brooklyn, Bronx, o Harlem negro, todos eles compravam isso. Mas ainda assim precisava de uma identidade. Aí a gente resolveu colocar o fat laces, essa foi a primeira identidade exclusiva da gente. E a nossa crew entendeu que isso era um ponto de diferença entre população normal e quem vive de ponta cabeça girando, quem tem um swing especial (risos). O fat laces representou a gente, e tomamos como nosso símbolo.

A minha conexão especial com tênis sempre foi incrível. ​Minha mãe me dava dinheiro pra eu ir comprar tênis novo na loja. Na época só tinha dois tênis nacionais pra comprar, tipo o Rainha, horrível, eu odiava os Rainha, e os M 2000, que era melhorzinho, mas era mais caro. E eu não gostava deles, eu não achava que era legal pra dançar. Sabe o que fazia? Eu chegava pros caras que tinham uns tênis mais legais, e falava “cara, vende esse tênis usado pra mim?”. Eu aparecia com um tênis remendado em casa com o mesmo dinheiro do novo, ​minha mãe ficava muito puta. E nossa, eu andava desfilando com aquele tênis que ninguém tinha, que alguém tinha trazido da gringa e já tava cheio de remendo com silver tape. Então minha conexão com tênis é essa, é uma coisa estética, identidade com a cultura e confortável. Não consigo dançar com tênis que não é confortável.

Mas eu não posso deixar de falar uma coisa, nesses anos que passaram a minha cabeça começou a mudar um pouco. Eu vivo no meio do business, marcas, e no meio da cultura do hip-hop, e eu acho que tem que ter um equilíbrio e um respeito entre um e outro. Eu não posso perder a identidade da minha cultura, porque a gente não precisa das marcas para viver, a gente vive sem elas até hoje – a gente só precisa de música e chão, nada mais. É uma cultura barata de existir. Então a gente consegue dizer não para as coisas que agridem a nossa cultura. Mas eu não posso deixar de dizer que as parcerias nunca foram muito justas. A gente acha que toda vez que uma marca chega perto da gente e não oferece um suporte pra cultura, a gente não briga, mas deixa de lado. A gente fala “o galera, não acho que vocês tão dando suporte, vocês chegam perto quando vocês querem algo pra vocês”. É natural e tá tudo bem, mas acho que as marcas têm que abrir o olhar para a cultura do hip-hop porque ela continua. As marcas vão ganhar com isso também.

 

Qual é a história do seu adidas Gazelle OG e porque ele é tão importante pra você?

O Gazelle é o mais compacto pro meu pé e conversa melhor com o formato dele. Eu já usei vários outros. Por exemplo, o Superstar é um modelo que eu não consigo dançar com ele com conforto. Eu tenho um Superstar, eu acho ele extremamente confortável e bonito, mas pra dançar a sola dele não me agrada. Minha irmã já não, ela ama dançar com o Superstar. Então o Gazelle pra mim é o que mais encaixa no pé, o fat lacing fica bem nele.

Mas a história é: ​eu fui pra gringa com um Gazelle preto e estourei ele de tanto dançar, foram 4 meses dançando enlouquecidamente. Todo dia ou era treino ou era festa. Foi a maior prova de resistência da minha vida, isso já faz 4 anos e eu já tava tiozão, né? Eu parecia um moleque, saía de uma festa, descansava um dia, meu eu tava vivendo em cidades que eu sempre quis viver na vida, São Francisco, Nova Iorque, Bay Area toda. Eu dancei com pessoas, crews, que sempre tive o sonho de dançar. E aí o Gazelle preto não aguentou (risos). No meio da viagem, eu procurei uma loja urgente pra comprar outro, achei esse aqui, e comprei.​ Agora ele já tá no final também, mas tem 4 anos que to com ele, os tênis duram comigo. Eu só treino e danço com ele, eu geralmente não uso muito ele no dia a dia. Mas treino 2 vezes por semana. É o meu tênis favorito de batalha. Tanto que agora eu vou aposentar ele de treino e vou só usar em batalha pra ver se dura mais tempo.

A gente sempre acha que quanto mais velho o tênis é, mais é a hora de ficar com ele, né? Meu, eu me sinto mais confortável. A primeira coisa que vem na sua cabeça é o conforto, e o mais velho é o que mais tem conforto. A gente explora ele de uma forma que a galera não explora, a gente pisa de vários ângulos, arregaça tudo.

 

Vimos que você se identifica com o símbolo do fat lace e que ele está presente em várias coisas da sua vida.

Muito louco né? Eu fiz o logo da crew com o símbolo do fat lace em 2000. Eu tava morando junto do meu sócio/irmão Bispo, a gente tava sentado em casa tomando umas cervejas, trocando ideia, e eu comecei a riscar uns logos, porque achávamos que a gente tinha que mudar o logo crew. Na verdade a crew não tinha um logo, era só umas letras. ​E aí eu vi o tênis jogado, comecei a riscar uns negócios assim e saiu. Era redondo no começo e depois a gente fez isso. E é louco porque os caras da cultura e até uns caras que eu respeito de design falam “puta sacada!”. E meu, virou tattoo né? Eu nunca mais vou deixar de ser B-boy e nunca vou esquecer a crew.