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Sobre Quando Conheci O Tinker Hatfield – Parte 2: A Entrevista

Essa entrevista foi originalmente publicada na REVISTA SBR número 5 (Dezembro/2013) e é interessante perceber como boa parte do que TINKER “previu” (MAG com PowerLaces e utilização dessa tecnologia em outros modelos, por exemplo) já virou realidade. Outras – AIR MAX 1 FLYKNIT – ainda não aconteceram, mas não devem demorar muito tempo para chegarem até nós.

A primeira parte dessa matéria, recapitulando a vinda de TINKER HATFIELD ao Brasil, você confere nesse link.

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SBR: Começando pela sua infância: como você começou a desenhar? Desenhava muito na parede da casa dos seus pais?

TH: Não, eu não desenhava nada.

SBR: Nem na escola? Quando você começou a desenhar, então?

TH: Eu acho que comecei a desenhar no colégio, porém bem pouco, somente durante aquelas aulas chatas. Não fiz aulas de artes e nem sabia que eu conseguiria desenhar bem. Foi como uma auto realização tardia, pois eu era um atleta em tempo integral.

SBR: Qual era a sua relação com tênis esportivos antes de você virar um designer? O que você usava na época da faculdade?

TH: Eu cresci usando Adidas, porque a Nike ainda nem existia. Adidas e Converse. Quando eu fui para a Universidade de Oregon, meu técnico de atletismo era o Bill Bowerman, um cara famoso, e o mais interessante é que, antes disso, eu fui conhecer algumas faculdades que me convidaram para jogar futebol americano, basquete e treinar atletismo. Sempre me perguntavam o que eu queria estudar e eu não fazia ideia, mesmo. Quando parei para pensar sobre, comecei a falar que queria estudar arquitetura. Eu me lembro de gostar de ver as casas por aí e seus diferentes estilos, mesmo não desenhando muito. Eu não estava preparado para cursar uma faculdade de arquitetura e não tinha chance alguma de entrar em uma: não tinha portfólio, não tinha nada do colégio e, como você deve saber, as faculdade de arquitetura são bem difíceis de entrar. Mas na Universidade do Oregon, particularmente, quando o Bill Bowerman me disse que eu ia fazer parte do time de atletismo e me perguntou o que eu queria estudar, foi isso que eu respondi para ele. Todas as outras universidades disseram que eu não poderia, pois era muito difícil e tomava muito tempo. Diziam que eu não podia estar no time de atletismo ou futebol americano e cursar arquitetura ao mesmo tempo,. Com exceção da Universidade de Oregon, onde Bill Bowerman me disse: ‘sabe, eu acho realmente muito difícil, mas eu acredito em você.’ E foi assim que eu comecei não só na faculdade, como também a usar Nike, pois o meu ano de calouro foi também o primeiro ano da história da marca. Então eu fui dos Adidas e sapatos de couro da KanragROOS para as sapatilhas com cravos da Nike. E eles eram terríveis. Era o primeiro ano da história da marca e eu pensava: “Ugh, eles não são nada bons”. Eu estava cursando arquitetura, aprendendo a desenhar e por alguma razão eu não desisti. E por estar cursando arquitetura, estar no time de atletismo e ter uma boa relação com Bill Bowerman, ele me pediu para ser um dos seus atletas de teste, de todas as suas novas ideias, pois eu não iria apenas usar e dizer se era bom ou não, eu ia desenhar algumas imagens ou seja, fazer um pré-design do calçado. E acho que isso foi o que me preparou para, no futuro, me tornar um designer de tênis: ter estado no time de atletismo.

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SBR: Belo começo. Falando sobre Brasil: temos uma tradição na arquitetura e no design, com nomes internacionalmente conhecidos, como Oscar Niemeyer. O que você conhecia do Brasil antes dessa viagem?

TH: Bom, minha percepção sobre Brasil vinha mais do futebol e da forma como os brasileiros o jogam, bem criativos e livres. Talvez nem sempre tão disciplinados, mas sempre com talento e arroubo. E eu pensava: ‘meu Deus, isso só pode vir de uma cultura especial, cheia de liberdade e criatividade.’ E aí você vê aquela multidão e tem o samba.. sabe, é sempre uma grande festa, mesmo durante o jogo e eu pensava, ‘o Brasil deve ser assim’. E agora que eu estou aqui, eu entendo. É muito legal.

SBR: Bom, era sobre isso a minha próxima pergunta: quais as suas primeiras impressões, agora que você está há três dias aqui no Brasil?

TH: A impressão que eu tenho é que é uma loucura. Nada é muito ordenado, o que na verdade é um ambiente perfeito para a criatividade e a auto-expressão. E eu acho que é por isso que os jogadores jogam da forma que jogam e por isso que a arte é tão boa, nas ruas. E as pessoas são tão amigáveis. Estou bem impressionado e gostando muito. É demais!

SBR: Você reparou nos pés dos brasileiros? Nos nossos tênis, na forma e nos modelos que usamos?

TH: Bom, eu diria que talvez eu precise de um pouco mais de tempo para ter uma melhor impressão. Mas até agora, em se tratando de tênis, parece que talvez as pessoas daqui estejam um pouco para trás em relação aos Estados Unidos, pois os brasileiros estão usando modelos que nós usávamos há dez anos.

Acho que parte da importância de virmos até aqui, contar histórias, nos conectar com essa cultura, é encontrar formas de fazermos as pessoas perceberem que há outros tênis além dos Shox e dos tênis grandões para basquete. Há esses tênis de performance super leves, como os Flyknits, os Lunar… Foi isso o que eu vi até agora: tênis que eram legais para nós americanos, há alguns anos atrás.

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SBR: Você viu muitos Shox por aqui…

TH: Sim, muitos. Estou surpreso! É meio louco, mas dá para entender, porque se você gasta muito dinheiro em um tênis e você o encontra em toda parte as pessoas acabam pensando que precisam de ainda mais dinheiro para conseguir outro tênis melhor. E eu acho que o Shox,, assim como outros modelos que têm um monte de componentes visíveis, mostra, de cara, que custaram muito dinheiro. Então eu consigo compreender porque eles ainda têm tanta força. E o Shox é legal, porém particularmente, eu prefiro usar algo que me proporcione um movimento mais próximo do natural.

SBR: O Air Max 1, por exemplo, é o meu tênis preferido e eu gosto tanto dele que o escolhi para comemorar os 2 anos do SneakersBR, com o Lanceiro, em 2009. Além disso, ele é um ícone inquestionável da cultura sneaker. Qual você acha que é o segredo do sucesso e da longevidade do Air Max 1?

TH: Essa é uma boa pergunta. Eu acho que o tênis representa o que havia de mais moderno, tecnologicamente, no tempo do seu lançamento, com sua bolha de ar visível, a espuma usada de um jeito mais interessante e o risco corrido por ter mais cores e não parecer com nenhum outro tênis na época. Esse pode ser um ponto de partida, mas não que, necessariamente, fosse fazer dele um sucesso. No meu ponto de vista, ele continua a ser um sucesso por ser relativamente simples e ter belas linhas. Às vezes você vê alguns carros que se mantém bonitos, não importa o ano de fabricação. E eu acho que o AM1 tem uma bela composição de linhas e, independente das cores e materiais usados, você continua a reconhece-lo. Isso, provavelmente, acontece também na arquitetura, com carros…e com tênis.

SBR: Nos últimos anos, algumas inovações foram introduzidas no AM1, como o uso de Hyperfuse, Tape, Engineered Mesh, etc. Alguma delas te incomoda?

TH: Não, nem um pouco. Se voltarmos um pouco na pergunta do que eu acho dos pés dos brasileiros, além dessa galera que curte o Shox, há uma comunidade sneakerhead bem saudável se formando por aqui – e você representa isso. Isso significa que temos visto alguns Air Maxes por aí e estamos vendo uma grande volta do Air Max também em cidades como Londres, Paris e até nos Estados Unidos. Além de vermos muito mais mulheres usando, de um jeito que nunca vimos antes. Acho que parte disso se deve a essa ‘reciclagem’, que o faz cada vez mais popular, afinal estão sempre o atualizando. Estão mantendo suas linhas e composição, o que é bom, porém trocando os materiais, deixando ele mais leve e aparando as arestas, o que torna o tênis viçoso, novamente, e ainda assim reconhecível. Eu acho que está ok e acho que é um negócio inteligente da nossa parte, além de introduzir o modelo para as pessoas mais jovens. Então está tudo certo. Não tenho nenhum problema com isso.

SBR: E qual a sua versão favorita do AM1?

TH: A favorita? Nunca me perguntaram isso…eu nunca pensei sobre a minha versão favorita.

SBR: Alguma que você lembre de ter visto e pensado “mandaram bem nessa!”? Afinal, há muitas versões dele por aí…

TH: Bom, preciso te falar uma coisa e ser bem honesto sobre isso: eu escolhi não me envolver com as edições retrôs. O AM1 deve ter sido desenhando antes de você nascer, provavelmente…(n.e. gentileza de Tinker, mas não mesmo).
Para mim, ele está no passado. Só vejo pelo retrovisor.
E eu estive envolvido na maioria desses tênis que têm sido refeitos, mas meu trabalho não é olhar para trás. É seguir em frente e ajudar a empresa a ir para frente e pensar em melhores tecnologias, como o Flyknit.
Eu tenho trabalhado com woven e tricôs há 12 anos. E levou entre 10 e 12 anos para chegarmos ao ponto onde pudéssemos realmente produzir o knit do jeito certo. Então, o meu trabalho é olhar para coisas que vão acontecer só daqui 5,10 anos.
Dos retrôs eu sou apenas o feliz destinatário dos créditos, por ter participado de sua criação. Mas não sei nada sobre eles. É meio estranho, eu não sou nem um colecionador e talvez esse seja o motivo de eu não ter um modelo favorito, pois eu não tenho muitos.

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SBR: Eu adoraria, então, ver um Air Max 1 feito de Flyknit…

TH: Tenho certeza que uma hora você vai ver! E é bem possível que você consiga escolher as cores.

SBR: Sério? Conseguiremos fazer pelo Nike iD aqui do Brasil, então?

TH: Me perguntaram, hoje mais cedo, sobre tendências e acho que estamos todos tentando olhar para o futuro. E chegar lá é parte do meu trabalho. A tendência de expressar a si mesmo através da customização de produtos é muito forte e acho que vai ficar ainda mais forte. Faz todo o sentido para nós continuarmos a trabalhar com o programa ID, fazendo com que ele chegue a mais pessoas. Torná-lo mais rentável e auto-sustentável é um caminho, diferenciando-o do Bespoke, que eu enxergo como mais caro. Para mim, o ID é para as massas, para as pessoas perceberam que não custa tanto assim ser único.

SBR: Seria demais poder escolher as cores do meu Air Max 1 Flyknit (risos)…

TH: Sim, seria muito legal. Mas é só você vir para os Estados Unidos e tomaremos conta de todo o resto! (risos)

SBR: Voltando ao tema mais sneakerhead, o que você acha dessa cultura? Alguns caras devem achar você quase um deus e muitos pensam que você flutua, ao invés de caminhar.

TH: (rindo) Bom eu não penso muito sobre isso.
Às vezes, quando vou para alguma loja ou evento, eu me surpreendo com a forma que as pessoas enxergam a mim e ao meu trabalho. Mas não penso muito sobre. Só estou tentando produzir novas coisas. Estou também tentando ensinar mais e passar adiante o que eu sei para os designers mais novos. Além disso, há uma questão importante de comunicação a ser resolvida, entre design e (os departamentos de) comunicação, marketing, produtos e vendas, para que todos tenham um melhor entendimento sobre o que fazemos e por quê. Existe também, internamente, uma luta: todos querem exercer a sua influência. É como se fosse uma sobrevivência do mais apto. Eu tento ajudar os designers a se manterem em seus ambientes e isso é uma coisa do mundo dos negócios e não apenas da Nike. Então tenho passado mais tempo ensinando o que eu sei sobre essas coisas.  De novo, não perco muito tempo pensando nos retrôs.

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SBR: Então falemos sobre o futuro: o que podemos esperar para os próximos anos? Alguma coisa melhor do que o Flyknit para os Jogos Olímpicos do Rio?

TH: Bom, acho que não estaríamos fazendo o nosso trabalho direito se não continuássemos a colocar cada vez mais produtos melhores e interessantes no mercado. E os Jogos Olímpicos são uma plataforma maravilhosa para anuncia-los. Não posso te falar exatamente o que vamos fazer, pois ainda é segredo. Top secret! E o Nate (Nate Tobecksen, diretor global de comunicação, que acompanhava a entrevista) atiraria em mim se eu revelasse algo (risos).

SBR: Ele já está quase atirando…é por isso, então, que ele está aqui?

TH: (rindo) Mas acho que é seguro dizer que gastamos muito tempo e esforço olhando para o mundo, tentando nos inspirar por novas coisas – e essa é uma boa razão para termos vindo ao Brasil – particularmente para mim, pelas ruas e não tanto por esses museus chiques e sofisticados, mas sim pela moda de rua, pela arte de rua. Isso é tão vibrante por aqui, tão criativo em todos os níveis! Tudo o que eu e os outros aprendemos e vimos vai ser unificado com novas tecnologias e acho que é isso o que você vai ver. Acho que você vai ver um belo e forte reflexo da cultura brasileira no nosso trabalho, futuramente.

SBR: Mesmo? Mal posso esperar.

TH: Sim. E me sinto muito bem dizendo isso.

SBR: E uma pergunta que muitos sneakerheads devem ficar se fazendo é o que você tem usado ultimamente?

TH: O que eu tenho usado? Essa é uma boa pergunta.

Eu tenho usado muitos Flyknits e tenho testado coisas novas, sobre as quais não posso falar muito, como o próximo Air Jordan, que será diferente do Flyknit, porém bem similar. Eu ando de moto todos os dias que posso quando não está chovendo…

SBR: Sim, me lembro bem do Air Jordan XX…

T: Sim sim, exatamente! Meu tênis favorito para usar quando estou andando de moto é um Special Force Boot que foi customizado para mim, com um pad no pé esquerdo para a troca de marchas. Eu uso muito porque acho confortável e me fazer parecer mau. Tenho minha jaqueta de motoqueiro e eu juro que quando eu coloco os dois juntos eu pareço uns dez anos mais jovem. E na minha idade isso é importante! (risos)

SBR: Estamos quase terminando, mas não podia acabar sem essa: 2015 está chegando…E aí, devo começar a guardar dinheiro para comprar o Mag que se amarra sozinho?

TH: (Rindo muito) Será que eu entendi a pergunta corretamente?

SBR: Sim. (rindo)

TH: 2015 já está aí mesmo, você está certo…

SBR: E os Mags serão caros…estou certo novamente?

TH: Sim…Sabe, vou te falar sobre isso, então. Mark Parker anunciou ao mundo que teremos o Mag com auto lacing em 2015 e estamos trabalhando muito para que isso aconteça. Não quero criar muitas expectativas, mas acho que o Mag não vai ser para todos…acho que ele vai ser bem limitado, uma tiragem bem baixa.

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SBR: Novamente, poucos pares?

TH: Porém, o que realmente é muito bom do Mag é que quando decidimos recriar o tênis, com toda a renda voltada para combater o mal de Parkinson, nós sabíamos que era a coisa certa a se fazer. Foi muito divertido relembrar do design do tênis e vê-lo sendo refeito. Mas a pessoa que realmente desenvolveu o Mag se chama Tiffany Beers. Ela é uma designer/desenvolvedora muito inteligente e também é engenheira, o que lhe permitiu trabalhar com os componentes eletrônicos necessários para que pudéssemos ter as luzes no tênis funcionando corretamente. Colocar luzes em um tênis é algo muito difícil de se fazer, por causa da umidade, etc. Um tênis precisa ser flexível e a fiação tem que ser bem trabalhada. Então, ela trabalhou muito para se certificar de que quando as pessoas arrematassem o tênis elas poderiam usá-lo por aí, sem desmaiar ou morrer. E aí, pensando em 2015, é ainda mais difícil descobrir como fazer com que o auto lacing funcione de forma segura e não custe dez mil dólares. Então estamos trabalhando no processo da mesma forma que trabalhamos no Mag anterior. E estamos gastando muito tempo, esforço e dinheiro para fazer isso. E esperamos conseguir ainda mais dinheiro de volta para a fundação do Michael J. Fox.

Porém, existe um outro tipo de retorno que recebemos quando trabalhamos em projetos como o Mag. Por exemplo: temos uma bota de snowboard (a recém-lançada Lunarendor) que tem tudo o que aprendemos fazendo o Mag, como as luzes e um sistema de aquecimento importantes para quem está na neve. Isso não teria acontecido se não tivéssemos feito o Mag e, para nós, mesmo gastando muito dinheiro para recriá-lo, isso nos levou a tentar coisas novas que talvez venham ser úteis em outros tênis de performance.
Portanto, se você pensar nos cadarços que se amarram sozinhos, o futuro dos tênis pode ser a presença de eletrônicos, motores e sensores minúsculos. Não seria legal se um par de tênis se ajustasse ou soltasse de acordo com o que você está fazendo, automaticamente?
Pense nisso: você está jogando basquete e está esperando um outro jogador arremessar o lance livre. Por que você vai querer que seus tênis estejam bem presos naquele momento? Não seria ótimo se eles se soltassem um pouco, tornando-se mais confortáveis quando você não está fazendo nada e aí, no momento em que você acelera, o tênis se ajusta automaticamente?

SBR: Como a jaqueta do McFly?

TH: Como a jaqueta do McFly! Acho que os tênis no futuro deverão ser mais interativos, deverão responder a estímulos, por meio de sensores, novas fontes de energia e novos materiais. E eu acho que isso vai acontecer logo.

Voltando ao Mag, ele ainda não está perfeito, mas quando estiver. em 2015, você não vão ver muitos dele por aí.
Porém, esse é apenas mais um passo para o futuro real. Leva tempo… Como eu disse, levamos dez a doze anos para aprendermos a tricotar um tênis e produzí-lo em larga escala.

SBR: Parece legal, mas triste…

TH: (rindo) Talvez você tenha sorte e consiga o seu!

SBR: Por último, praticamente um desafio – e eu sei que você é bom com desafios, pois foi um que o levou da arquitetura para o design de tênis: e se o desafio agora fosse criar um tênis novo, inspirado no Brasil? Um modelo que pudesse ser usado por atletas, mas também fosse perfeito para o dia a dia, super estiloso e com DNA brasileiro. Como ele seria? Você quer 24 horas para me mandar um esboço? (risos)

TH: Engraçado…(rindo muito) Vou responder a sua pergunta de uma outra forma: já começou.

É verdade que quando você visita um lugar como este, tão cheio de vida e, novamente, há muita vibração e energia por aqui, e isso é bom e te faz sentir vivo, sua criatividade aumenta muito. Quando eu vim pra cá, comecei a desenhar imediatamente. Talvez eu ainda não esteja canalizando para algo específico, conscientemente, tudo o que eu já vi aqui no Brasil.
Ontem, na Vila Madalena, eu fui roubado duas vezes…(risos) não, brincadeira. A segurança era bem forte e o passeio foi incrível!  E quando eu voltei para o hotel eu já comecei a rabiscar, inspirado por aquilo tudo que vi, por estar no Brasil, mesmo que há menos de 3 dias. Ontem, especialmente, quando fomos para aquela rua toda grafitada e passamos na (loja) Tag and Juice, e também na noite anterior, no Caos, o bar, vimos as pessoas nas ruas, o que elas usavam…uma mistura engraçada de coisas americanas antigas transformadas em uma novas pelos brasileiros.
Muitas coisas de design são uma reinterpretação, de alguma forma, de uma coisa que você já viu anteriormente, entende? Então, já está acontecendo.
Queria poder lhe mostrar o que eu tenho aqui, mas o desafio que você citou é real e já começou.

SBR: De novo, mal posso esperar para ver o resultado, então.

TH: Sim, vai ser divertido. Estou animado. Acho que temos cinco ou seis designers no grupo e tem mais alguns indo e vindo. E o Brasil vai ficar cada vez mais importante internacionalmente, por causa da Copa do Mundo, obviamente por causa das Olimpíadas, mas também por causa do que vamos construir com o que estamos capturando aqui – e provavelmente outras empresas também vão fazer o mesmo.

SBR: Um conselho: evite usar os temas samba, carnaval e talvez as praias.

TH: Sim, sim! É um clichê. Concordo com você. Vou para o Rio de Janeiro amanhã e entendo que há um senso comum meio equivocado. O que estamos vendo aqui em São Paulo e o que vamos ver em outras partes do Rio, além das praias, provavelmente vai nos informar melhor, pois é muito fácil pegar uma revista e ver só fotos de Ipanema, do Carnaval…coisas que estão lá a vida inteira. Por isso, acho que é um bom conselho seu e nós não queremos trabalhar com clichês. Com certeza conseguimos fazer melhor.

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Fotos: Flávio Oota

Colaborou no texto: Jaime Ha